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100 Guilty Pleasures

Todos temos um. Para cada dia da semana.

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O "meu" Eusébio

por Zé, em 08.01.14

 

Comecei a apreciar futebol quando tinha os meus 10 anos. Nesse longínquo ano de 1990 as minhas tardes de domingo eram passadas de rádio em punho, saltitando entre estações de rádio para ouvir os relatos. A televisão, apesar de transmitir praticamente todas as semans pelo menos um jogo, não exterminava o gozo que era ouvir um "gooooolo" gritado a plenos pulmões por excelentes profissionais como o saudoso Jorge Perestrelo, o Ribeiro Cristóvão, o David Borges, o Fernando Correia e o Carlos Daniel. A voz grave e ritmada destes decanos do jornalismo desportivo fazia-me viajar por estádios de norte a sul do País e transmitiam tal emoção que nunca deixei de acompanhar as partidas através das ondas hertzianas.

Agora imaginem como as pessoas vivas em 1966 acompanharam os golos e exibições fantásticas do Eusébio no Mundial de Inglaterra. A televisão ainda era um luxo para a maioria das famílias, com transmissões em fase experimental e de fraca qualidade. Quem mesmo assim não quis perder os jogos da Selecção nesse ano teve de socorrer-se do velhinho transístor. E que emoção não terão sentido ao ouvir Artur Agostinho e Fernando Correia, enviados da Emissora Nacional e do Rádio Clube Português, explodir de alegria com os tentos da Pantera Negra? 

O meu pai nessa altura teria também os seus 10 anos. Este domingo, quando ouvimos na rádio - estávamos numa pastelaria - a notícia da morte do grande Eusébio, o meu velho chorou. E sem que eu lhe pedisse nada, começou a contar-me histórias da infância. Como daquela vez em que ele era o único miúdo da escola a ter o tão desejado "cromo" do jogador do Benfica. Ou do momento em que pediu ao pai para irem ver a chegada da Selecção a Lisboa, e conseguiu arrancar um autógrafo ao ídolo. 

Há poucos anos tive a oportunidade de seguir as pisadas do meu pai. Ao jantar com um grupo de amigos na Catedral da Cerveja dei de caras com o grande Eusébio. Fiquei paralisado. Não sei quais foram as minhas primeiras palavras, mas lembro-me de lhe ter contado o episódio do meu pai em 66. Apenas retive na memória um sorriso enorme e uma confissão inesperada: "eu lembro-me do teu pai. Foi o único sportinguista a quem dei um autógrafo quando regressámos de Inglaterra. Dá-lhe um abraço por mim".

Morreu o grande Eusébio. Morreu também uma parte de Portugal: aquela que ainda mantém intacto o orgulho pelos seus ídolos.

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