Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

100 Guilty Pleasures

Todos temos um. Para cada dia da semana.

100 Guilty Pleasures

Todos temos um. Para cada dia da semana.

Eusébio não merece o Panteão

por Zé, em 10.01.14

Á primeira vista o título deste texto parece provocatório: Eusébio não merece o Panteão. Porquê? Já lá iremos.

Comecemos por analisar as figuras merecedoras de figurar naquele local considerado "sagrado" para a nação portuguesa. Nele estão sepultados, aparentemente, as pessoas que mais contribuíram para a cultura e política nacional. Criadoras de feitos majestosos, importantissimos na construção do país que hoje somos, pelos livros que escreveram, a sua actuação enquanto ministros ou Presidentes, a luta que travaram pela educação e desenvolvimento do Portugal. Volto a repetir: tudo isto "aparentemente".

Uma análise fria e livre de nacionalismos bacocos deita por terra este argumento. Almeida Garrett merece o seu lugar no Panteão, não apenas por ser autor de obras essenciais do movimento romântico em Portugal, mas também por se ter revelado figura essencial na luta entre Liberais e Absolutistas no século XIX. Humberto Delgado foi o primeiro grande opositor ao regime do Estado Novo, apresentando-se como candidato às Presidenciais de 1958 e lutando taco a taco com o eleito de Salazar, o Almirante Américo Tomás. Galvanizou o país graças a uma campanha eleitoral forte e destemida, apesar dos entraves colocados pela máquina censitória da ditadura. O papel que desempenhou na denúncia, até no estrangeiro, do regime permitiu-lhe entrar nos anais da História como o "General Sem Medo". Merece estar no Panteão? Claro que sim. 

Mas agora chegamos ás presenças duvidosas. Aquilino Ribeiro, escritor brilhante, foi antes disso fabricante de bombas e um dos autores do plano para assassinar o rei D. Carlos e o herdeiro Luís Filipe. Desde quando um terrorista e criminoso merece estar no Panteão? Desde que a República o reabilitou como "salvador da pátria". Sidónio Pais chegou à Presidência do país após um golpe de Estado em 1917, e instaurou uma ditadura em pleno regime republicano. Nada de importante deu ao país, a não ser a criação da "Sopa dos Pobres", mais direccionado a um culto da personalidade do que a verdadeira intenção altruísta. Óscar Carmona só não chegou a ditador porque Salazar o ultrapassou e deixou-lhe ficar somente o cargo de Presidente da República. De obra relevante, zero. Teófilo Braga foi melhor literato e historiador da cultura portuguesa do que propriamente Presidente. Manuel de Arriaga a mesma coisa - aliás na época foram ambos considerados presidentes medíocres e sem capacidades de liderança. 

E por fim, chegamos a Amália e Eusébio. Podem não ter escrito obras literárias importantíssimas, liderado governos complicados, organizado atentados terroristas. Mas marcaram o seu tempo. Deixaram gravadas páginas incríveis da História de Portugal. Viajaram por todo o mundo dando a conhecer a cultura portuguesa. Tornaram-se verdadeiros embaixadores do País - os primeiros do século XX. Arrastaram multidões para os seus concertos e jogos de futebol, criando legiões de fãs que atravessaram diversas gerações. São figuras populares por direito próprio. Mudaram o país e mudaram com ele. Ajudaram a quebrar um pouco do isolamento internacional a que Portugal esteve sujeito durante a década de 60. Não merecem por isso ser enfiadas num Panteão parvo, onde repousam os restos mortais de personagens medíocres (tirando Garrett, Amália e Delgado, volto a referi-lo) e que em nada simbolizam o povo português.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Favoritos